13.5.12

Transcendência



O ser humano é um ser de linguagem, que pela necessidade de estabelecer significado à sua existência desenvolve inúmeras formas de relacionamento com a natureza, a sociedade e o transcendente. Tais relações têm sempre o intuito de suprir o caráter transitório da vida. A vida é efêmera, e para vencer essa limitação o Homem se lança na busca da perpetuação de sua obra. Através do trabalho, ou projeto, a que se dispõe o Homem, ele tece a cultura, interpretando a realidade e consolidando sua dimensão humana.

O que há de mais humano é a transcendência. Sua capacidade de superar a si próprio, de transpor limites e de trazer para dentro de si tudo o que lhe é exterior. A transcendência como ensina St. Agostinho é o que faz de sorte a que um ser, permanecendo o que é, saia de si mesmo. Etimologicamente, o termo trans-ascendere, significa “subir além de...”.

Nosso querido poetinha, Vinícius de Moraes nos dá uma dica: “Quem de dentro de si não sai, vai morrer sem amar ninguém.”

O objetivo destas linhas é correlacionar a questão da transcendência ao trecho “O Grande Inquisidor” do livro “Os irmãos Karamazov” de Dostoievski e o filme russo “Stalker” de Andrei Tarkovski.

No livro, Dostoievski cria um monólogo cujo personagem principal é um poderoso inquisidor dos meados do século XVI do tribunal eclesiástico espanhol. O coadjuvante, que se mantêm em silêncio, seria a própria personificação de Jesus Cristo, que retornara à terra dos homens como prometera há quinze séculos. A situação proposta pelo autor coloca face a face um representante máximo do Santo Ofício da Igreja Católica Romana e Jesus Cristo a quem a instituição se diz devota e, todavia o faz prisioneiro.

Antes de qualquer análise, deveríamos ter um distanciamento frio e sem emoções. Apesar de repudiarmos todas as atrocidades e violências protagonizadas pela Igreja Católica desde o século XII até o século XIX, devemos, assim mesmo, entender o fenômeno da inquisição sem anátemas e censuras passionais.

O ser humano é fruto de seu tempo, e por isso, marcado profundamente pela cultura do seu século. Para entendermos seus feitos com objetividade é preciso traçar com rigor as linhas do pensamento da época.

O homem medieval e pós-medieval lidava com outros critérios de ciência, ética e justiça. As verdades metafísicas e o amor à fé eram tantas que a heresia era considerada como “o pior de todos os crimes”. A respeito deste conceito São Tomás de Aquino escreveu: “É muito mais grave corromper a fé, que é a vida da alma, do que falsificar a moeda, que é o meio de prover à vida temporal. Se, pois, os falsificadores de moeda e outros malfeitores são, a bom direito, condenados à morte pelos príncipes seculares, com muito mais razão os hereges, desde que sejam comprovados como tais, podem não somente ser excomungados, mas também em toda justiça ser condenados à morte”.

A preocupação religiosa era corrente nas camadas populares, superior às preocupações econômicas ou políticas. Afinal, todos os cristãos se deslumbravam com a maravilhosa obra que sua igreja proporcionava. O ser humano, enfim, alcançara certa liberdade e dignidade, de servo passou a ser o filho de Deus, todos agora, sem exceção, eram feitos à imagem e semelhança do Pai todo poderoso.

É neste cenário fortemente religioso que se instaura os tribunais do Santo Ofício. Um instrumento capaz de regulamentar a paz social, a moralidade e os bons costumes. Aqueles que transgrediam as leis da conduta espiritual cristã estavam sujeitos à purificação de suas almas em enormes fogueiras erguidas em praças públicas.

No texto de Dostoievski, a obra ou projeto da Igreja Católica Romana a que referimos, aparece em destaque. Um inquisidor nonagenário, temido e respeitado, que dedica seu trabalho à redenção espiritual de todos os homens, quer tirar-lhes o fardo da liberdade - essa é sua maior realização: “Custou-nos caro, mas afinal acabamos a nossa obra, em Teu nome”, ele se orgulha, “Pois fique sabendo que agora os Homens estão mais convencidos do que nunca de que são completamente livres. E, entretanto, eles próprios nos entregaram a sua liberdade, no-la depuseram humildemente aos pés”. Ele se refere à responsabilidade que a liberdade exige, e a dificuldade de ter opções.

Ser um humano é ter o poder de escolha e mesmo que ele escolha em não escolher, isso já seria uma escolha. Estar “condenado a ser livre”, como diz Jean-Paul Sartre, significa que somos os únicos responsáveis pelo nosso próprio “mundo”. Muitas vezes preferimos nos ver como “vítimas do sistema” do que nos sentir responsáveis pelas transformações ao nosso redor.

A liberdade é um exercício. Construímos nossa liberdade a partir das nossas relações com o mundo. Se as condições forem favoráveis ao suprimento de nossas necessidades, se tivermos um processo cultural consciente, alcançaremos ainda mais nossa dimensão humana. Quanto maior for o processo de humanização mais livre será a humanidade. O uso da liberdade é uma forma de transcendência.

O autoritarismo, o dogmatismo, o fundamentalismo de qualquer espécie corrompem a integridade do indivíduo, e distancia-o cada vez mais de sua essência e vocação. Como nos ensina o filósofo Ortega y Gasset: “Eu sou eu e minha circunstância, se não a salvo, não me salvo eu”.

A questão Humanização-Liberdade-Transcendência surge com muito êxito no filme russo “Stalker” de Andrei Tarkovski. A cor do início da trama é sépia, dando o efeito de fotogramas envelhecidos. As cenas são na maioria em planos gerais e médios, raramente em planos muito fechados nos rostos dos personagens. De uma maneira, assim, a caracterizar a distância entre as pessoas, sua miséria e solidão. O ambiente é sinistro. O silêncio é de tempo em tempo, rompido pelo ruído do trem. A câmera mantém o movimento e o ritmo lento. Os planos de seqüências são longos, o que sugere um marasmo na vida daquelas pessoas.

A história é a de um homem, um ex-penitenciário, desiludido com a vida. Sua mulher e filha vivem mergulhados em desesperança e tristeza. Seu ofício é guiar as pessoas interessadas em ir a uma área descrita como “o milagre dos milagres”, chamada “Zona”. As histórias e lendas do lugar são as mais diversas e desencontradas, há quem diga que naquela área pousou discos voadores, ou são ruínas de uma civilização humana mais adiantada. O exército alega a queda de um meteorito, mas o meteorito nunca foi encontrado. Cercaram-na, então, com arame farpado, pois corriam boatos que ali, haveria um local, onde se cumprem os desejos... E as pessoas podem ter muitos desejos.

Os Stalkers como são chamados os banidos e marginalizados e sem nenhuma esperança de reintegração na sociedade, são as únicas pessoas que podem voltar vivos da “Zona”. Por isso, o protagonista encaminha dois homens, também desperançosos, um escritor escasso de criatividade e um cientista frustrado pessoal e profissionalmente.

Ao chegarem na “Zona Proibida”, as cores saltam aos olhos. O ambiente nos passa paz e tranqüilidade. A dinâmica das cenas se intensifica, a narrativa torna-se mais ágil. Os personagens já aparecem em “closes”, e aparentam mais disposição. O artifício utilizado pela fotografia do filme é uma clara alusão à um lugar etéreo, metafísico, uma outra dimensão da realidade. Um ar de plenitude, uma lógica contrária a lógica mecanicista na qual conhecemos, o lugar exerce uma lógica que lhe é própria. O que não pode ser jamais comprovado pelos olhos da razão. Ao andarem para trás, por exemplo, sairiam na frente. O mesmo caminho nunca é o mesmo quando regressado. É preciso andar em ziguezagues e estar sempre atento às armadilhas comum a tudo que é desconhecido.

A “zona” citada no filme é uma “zona de transcendência”, é onde se aspira à liberdade, lugar no qual o homem se sente mais humano em sua essência mais profunda. É um recanto, um refúgio, uma realidade de onde brota um sentimento de re-ligação do homem e sua alma. Apenas aqueles desafortunados e desperançosos que expressam um pouco mais de fé no milagre da existência poderão sorver ensinamentos tão espirituais.

A questão principal do filme é denunciar a condição humana precária e sem dignidade. A escassez de espiritualidade do homem contemporâneo, a falta de rumo e transcendência. Tarkovski parece nos mostrar que a transcendência é uma questão humana e não divina. É algo da nossa verdadeira dimensão humana.

A idéia de transcendência não está ligada à idéia de Deus, nem do homem auto divinizar-se. A idéia da transcendência esta relacionada ao homem, a verdadeira construção do humano, a humanização. Uma sociedade justa, fraterna, solidária, livre, que respeite o indivíduo sem individualismos. O ato de humanizar-se é em si a própria transcendência.





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